Jung e Budismo – Individuação, Nirvana e Reencarnação

Por: Ryath

Encontramos, nos paralelos entre a Psicologia Analítica de Jung e o Budismo, uma profundidade muito grande. Aquilo que a religião de Buda chama de autoconhecimento, os junguianos chamam de individuação; e o que os budistas chamam de Nirvana, na psicologia junguiana pode ser entendido como totalidade psicológica.
O autoconhecimento e a individuação são caminhos de crescimento interior. Na teoria de Jung, o paciente vai tomando consciência de conteúdos que antes não possuía.
Essa consciência já existia em algum lugar: o inconsciente, que é o oposto do consciente. O consciente é aquilo que se sabe, enquanto o inconsciente é aquilo que não se sabe.
Segundo o Budismo, tudo o que acontece conosco fica registrado em nós, mas não temos consciência disso. Esse conteúdo corresponde ao que a Psicologia chama de inconsciente, e tomar ciência do que antes não tínhamos acesso é o autoconhecimento.
Tudo está dentro de nós: o que sabemos e o que não sabemos. Só conseguimos retomar conhecimentos que antes não possuíamos porque, de alguma forma, eles já estavam em nós, ainda que sem acesso consciente.
À medida que progredimos no autoconhecimento e na individuação, ao atingirmos níveis mais elevados, ocorre o que pode ser compreendido como Nirvana ou integração da totalidade psicológica.
O que acontece após esse estado é algo que levou Jung a desenvolver estudos nessa direção. Após o Nirvana, pode-se falar em experiências místicas, nas quais a consciência vai além de si mesma. Jung e outros teóricos contribuíram para o surgimento da chamada “quarta força” da Psicologia: a Psicologia Transpessoal, que estuda a transcendência do pessoal.
Quando a consciência se expande em um nível muito elevado, ela passa a ir além de si mesma, abrangendo outras pessoas e dimensões da existência. Nesse estado, o indivíduo tende a pensar mais no coletivo do que no individual.
Em um nível considerado paranormal, essa consciência expandida poderia acessar informações de outras pessoas, de suas próprias consciências.
Quando se atinge a totalidade psicológica, ou Nirvana, alcança-se não apenas o inconsciente pessoal, mas também o inconsciente coletivo — conceito que envolve toda a humanidade, sua história e seus símbolos, inclusive símbolos presentes no Budismo.
A Psicologia Transpessoal estuda justamente esses estados em que a consciência vai além de si mesma. Isso pode ocorrer em determinados momentos da vida, especialmente por meio de práticas espirituais, como a meditação, ou quando a pessoa atinge a totalidade da personalidade.
Essa abordagem também considera a possibilidade de que a vida seja contínua, relacionando-se com a ideia de que tudo é energia — conceito associado, de forma interpretativa, à Física Quântica. A mente, por exemplo, produz ondas que podem ser observadas em medições científicas.
Se tudo é energia, e a energia não se destrói, mas se transforma, então a mente também seguiria esse princípio de continuidade.
Muitas escolas budistas ensinam que a vida é contínua e acreditam na reencarnação — ideia que Jung também considerou em parte de sua obra.
Jung, assim como diversas tradições budistas, entendia que o processo de autoconhecimento ocorre durante a vida material.
Na Psicologia Analítica, quem auxilia no processo de individuação é o terapeuta; no Budismo, esse papel é exercido pelo mestre ou guru.
Jung afirmava que, quando a pessoa não passa pelo processo de individuação, ela é governada pelo destino. Porém, ao se autoconhecer, passa a conduzir a própria vida com mais consciência, deixando de apenas reagir aos acontecimentos e desenvolvendo sabedoria para lidar com eles.
O Budismo também busca o desenvolvimento da sabedoria e da compaixão.
Jung estudou as mandalas, assim como ocorre no Budismo Esotérico, Tibetano ou Vajrayana, e as utilizou como ferramenta de autoconhecimento e cura, além de reconhecer o valor de práticas como a meditação.
Entretanto, há uma diferença importante entre os dois caminhos: enquanto, no processo de individuação de Jung, o ego tende a se fortalecer e se organizar, no treinamento budista ocorre o desapego e a superação do ego.

 

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