O Evangelho de Filipe – A Interioridade e o Misticismo

Por: Ryath
O Evangelho de Filipe é uma obra descoberta em 1945, que reúne diversas reflexões de conhecimento interior, espiritualidade e misticismo. Quando falamos em misticismo, queremos dizer a união do homem com o divino. Por isso, são textos muito atrativos para quem gosta desses temas, comuns nas doutrinas orientais e em religiões e filosofias como o Budismo, a Yoga, o Dzogchen, o Taoismo e o Hinduísmo, mas que não encontramos com tanta facilidade no Cristianismo tradicional.
1 – A Salvação
O Evangelho de Filipe ensina que a libertação, ou salvação espiritual, vem com o conhecimento interior, ou seja, com o autoconhecimento.
O que importa é o que está dentro.
O despertar espiritual, que traz um grande autoconhecimento, é o que leva à salvação. Isso é o que podemos chamar de santidade.
2 – Misticismo
O Evangelho de Filipe, ainda tratando do conhecimento interior e do fruto do autoconhecimento, revela que existem opostos, como o humano e o divino, o espírito e a alma, o masculino e o feminino, e que é importante buscarmos a integração entre eles. Isso é uma forma de misticismo.
O misticismo é a integração que leva ao Uno, fazendo parte também da iluminação espiritual e da salvação.
Segundo o Evangelho de Filipe, a separação leva ao sofrimento, enquanto a libertação conduz à plenitude espiritual. Isso é profundo, pois, enquanto as coisas permanecem separadas, sentimos falta; quando estamos integrados, sentimos plenitude.
Essa plenitude é emocional, assim como a falta é um vazio.
Essa é a busca: a plenitude.
O amor é união espiritual.
O amor é a força da união, da união com o divino e da dissolução da separação.
O afeto e o espiritual estão intimamente ligados, e a ideia de que o desapego seja indiferença é um erro.
Os Evangelhos Apócrifos pregam o desprendimento, que não significa ausência de amor, proximidade, importância, afeição ou aproveitamento das coisas boas da vida.
3 – Sacramentos Simbólicos e Espirituais
Esse evangelho enumera os seguintes rituais: batismo, unção, eucaristia, redenção e a “câmara nupcial”, sendo todos entendidos de forma esotérica.
O sacramento da câmara nupcial não seria, segundo algumas interpretações, a união de um casal, mas sim a união da alma com Deus. Isso é misticismo: integração com tudo o que existe, pois Deus estaria em tudo e em todos.
4 – Inferioridade Material
Assim como os Evangelhos de Judas e de Maria Madalena, o Evangelho de Filipe apresenta o mundo material como inferior ao espiritual.
A função dos evangelhos seria transmitir ensinamentos sobre a vida e a obra de Jesus Cristo. Assim, entende-se que o Mestre tenha ensinado isso, da mesma forma que Platão ensinou algo semelhante cerca de 500 anos antes de Cristo.
Inclusive, o significado de espiritualismo é a crença na superioridade do espiritual sobre o material, e esses evangelhos vêm encantando espiritualistas que acreditam na interioridade, no autoconhecimento, na iluminação espiritual, no divino interior etc.
Existe maior dificuldade na aceitação do Evangelho de Judas, principalmente porque Judas Iscariotes é uma das figuras mais odiadas da história. Porém, seu evangelho apresenta a ideia de que ele teria entregado Jesus a pedido do próprio Mestre, para que seus ensinamentos se espalhassem pelo mundo.
Na obra de Filipe, assim como em Platão, o mundo material é incompleto e temporário, enquanto o espiritual seria eterno.
Atingir o mundo eterno também é chamado de vida eterna, que não seria apenas a vida após a morte física, mas sim uma vida de grande consciência e grande luz.
A alma estaria presa às ilusões do mundo físico, mas a salvação traria o conhecimento real.
5 – Verdade Oculta
Existe uma verdade espiritual oculta, descoberta através da revelação espiritual obtida pelo conhecimento interior, e isso conduz à sabedoria.
Jesus seria um mestre da sabedoria.
Assim como o Budismo ensina, o Evangelho de Filipe também afirma que as pessoas estariam adormecidas e precisariam despertar.
Esse despertar seria a união do homem com Deus, que representa a salvação.
As pessoas se identificariam apenas com o mundo exterior, mas precisariam voltar-se para dentro e se autoconhecer. Quando isso acontece, a pessoa descobre sua própria origem divina.
Essa verdade espiritual precisaria ser vivida diretamente, não apenas por meio de teorias ou estudos de obras escritas, mas através do despertar da consciência.
Existe algo semelhante no Taoísmo e no Budismo: a ideia de que o absoluto não pode ser plenamente explicado, mas apenas vivenciado, pois somente assim pode ser compreendido. Ele estaria além das palavras.
6 – Revelações sobre Jesus
Esse evangelho apresenta Jesus como o revelador da verdade interior, capaz de despertar as pessoas para o autoconhecimento, onde a salvação acontece através do despertar da consciência.
O Evangelho de Filipe também apresenta Maria Madalena como companheira de Jesus e alguém muito próxima dele.
Isso ainda gera preconceito, pois Madalena foi historicamente associada à prostituição. Além disso, existe, em parte do Cristianismo, uma visão negativa sobre sexualidade e até sobre o amor romântico, valorizando uma santidade desprovida dessas experiências. Porém, isso é visto por algumas correntes espiritualistas como um erro, já que figuras como Buda, Sócrates e Lao-Tsé também tiveram experiências ligadas à vida afetiva ou familiar.

 

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