Por: Ryath
Para Sócrates, o ser humano tem uma mente que o diferencia dos outros tipos de seres vivos, pois só nós podemos refletir, pensar ou repensar os nossos atos.
Porém, além de podermos pensar e repensar nossos atos, podemos fazê-lo também sobre os outros. Mas, se o fizermos de forma maldosa, isso é o que se chama erroneamente de julgamento.
Pois o julgamento, em seu sentido verdadeiro, significa apenas raciocinar.
Pessoas que pensam no coletivo, e não mais no individual, são ótimos juízes, líderes e administradores, pois têm uma visão na qual muitas pessoas se encaixam, capacidade essa dos iluminados.
Sócrates pensava que podemos julgar, ou seja, avaliar, e é por causa disso que podemos dialogar. Os animais, por exemplo, não podem falar, mas se comunicam de alguma forma. Dependendo da maneira como falamos, eles nos entendem mesmo sem compreender as palavras; eles leem nossa expressão corporal e o jeito de falar. São muito inteligentes, vendo por esse ponto de vista.
Os diálogos de Sócrates podem fazer as pessoas refletirem sobre os problemas que vivem, conversando com elas, e assim podemos, talvez, ajudá-las.
Como temos a capacidade de refletir, podemos usar esse dom para melhorar a nossa vida.
No entendimento de Sócrates, é importante termos uma vida bem vivida e, portanto, refletida.
Sócrates ensinava que é importante refletirmos sobre o que fazemos, pensamos e sentimos. Fazendo isso, questionando os valores, as ideias, as leis, as regras, as formas de pensar das pessoas e tudo o que já está estabelecido, só assim teríamos uma vida que vale a pena ser vivida.
Para Sócrates, muitas coisas são apenas aparências, e a forma de chegarmos à verdade é refletindo e dialogando.
É muito interessante que a iluminação seja entendida como um despertar das ilusões, como ensinam as religiões orientais, principalmente o Budismo.
No Budismo, os recursos para o autoconhecimento são fazer o bem, abster-se do mal, desenvolver atenção plena e meditar, enquanto, para Sócrates, são a moral, a ética, a reflexão e o diálogo.
Isso nos lembra muito o que um psicólogo faz, e a palavra "psi", de psicólogo, tem justamente sua origem em conceitos relacionados à alma.
Sócrates chamava a alma de psyché, que é traduzida hoje em dia como psique, nosso mundo interno, que é imortal segundo a filosofia socrática e a Psicologia Transpessoal.
A palavra psicologia vem de psique e logia, que significa estudo. Portanto, Psicologia é o estudo do que o ser é por dentro, sua alma.
A Psicologia não entra na questão da imortalidade da alma, a não ser a Psicologia Transpessoal, pois existe muito preconceito com religiões e espiritualismos. Porém, essa é uma ciência que, ao investigar e estudar os seres humanos internamente, psicologicamente, esbarra em muitas questões espirituais.
Freud era ateu e queria desvincular a Psicologia do espiritual. Já Jung pensava diferente, acreditando que deveria estudar o espiritual, pois ele fazia parte da psique humana.
Na filosofia socrática, busca-se chegar à essência das coisas, indo além das aparências.
Para Sócrates, as coisas têm uma aparência, mas vê-las como realmente são significa chegar à sua essência.
Na Índia, as aparências e ilusões são chamadas de Maya, e o Nirvana é o despertar dessas ilusões.
Porém, o Nirvana não é o despertar de todas as ilusões, mas de muitas delas, principalmente das ligadas ao ego.
Sócrates ensinava que temos que questionar as coisas para verificar se são verdadeiras ou apenas ilusões.
Temos que pensar para além do que vemos de imediato.
É chegando à essência das coisas que podemos dizer o que é e o que não é.
Na Psicologia, lida-se muito com o inconsciente e o consciente, que correspondem ao que sabemos e ao que não sabemos.
O autoconhecimento, na Psicologia, nos traz conhecimento real, retirando informações do inconsciente e trazendo-as para o consciente.
Para o pensamento socrático, a Filosofia deveria ir além das aparências e chegar à verdade.
Muitos iluminados, fundadores de religiões e filosofias, trouxeram muitas informações baseadas no conhecimento da essência das coisas. Porém, isso não significa que estivessem livres de enganos. Ainda assim, é importante lembrarmos que, se erraram, isso ocorreu com as melhores intenções.
Para Sócrates, o conceito é algo que foi pensado, refletido e analisado para além das aparências, e então isso seria a verdade.
Sócrates estava muito preocupado em chegar à essência das coisas, mas, para isso, é necessário muito esforço. É isso que a Filosofia deveria fazer; é isso que os filósofos deveriam fazer.
Questionar, pensar e refletir para chegar à verdade, para Sócrates, é como fazer uma escultura, em que se vai retirando partes da matéria bruta até formar uma imagem bonita, e essa imagem é a essência.
O autoconhecimento é isso na Filosofia: esculpir a si mesmo. Cada pedaço retirado da matéria bruta vai dando forma ao que somos de verdade, que é a escultura.
Existe um conceito no Zen Budismo chamado Alaya Vijnana, e, nos espiritualismos que acreditam em karma e reencarnação, esse conceito é chamado de Arquivos Akáshicos. Isso significa que tudo o que vivemos está guardado nesses arquivos, que ficariam justamente em nosso inconsciente. Então, agora você entende por que a consciência está relacionada ao autoconhecimento?
Reflita um pouco sobre isso antes de continuar o texto.
No inconsciente está guardado aquilo que não sabemos sobre tudo o que vivenciamos. Quando nos autoconhecemos, acessamos esse conteúdo, e então surgem em nossa mente coisas que antes não sabíamos sobre nós mesmos.
Esse conceito dos Arquivos Akáshicos ainda não existe na Psicologia.
Os psicólogos já sabem que existe muita coisa em nosso inconsciente, mas ainda não chegaram, até onde sabemos, à conclusão de que tudo o que vivenciamos está armazenado nele.
Segundo a analogia de Sócrates, tudo o que é retirado da massa bruta para virar uma escultura corresponde justamente a cada pedacinho de autoconhecimento que o ser humano conquista, formando a imagem do que ele é de verdade, que é a escultura pronta.
Toda a massa bruta são as aparências, e a verdade é a escultura.
O Espiritualismo nos ensina que existem muitas coisas erradas, tanto nas religiões quanto nos ateísmos, nas filosofias e até mesmo nas ciências (embora menos nas ciências), mas é através do questionamento que chegamos à verdade.
Existem muitas contradições, e é questionando que chegamos à verdade.
Existe um mundo inteiro de ilusões e aparências para questionarmos.
Sócrates, em seus diálogos, questionava o pensamento das pessoas, indo a fundo, fazendo-as refletir sobre por que pensavam da maneira que pensavam e por que faziam as coisas que faziam, ajudando-as a chegar a uma verdade e a se autoconhecer.
Porém, pessoas com o ego muito forte se ofendiam com as aparências que elas mesmas criavam para se enganar e, por isso, ficavam magoadas com Sócrates.
É muito comum criarmos aparências para não vermos a verdade, e isso está presente na Psicologia de Freud. Mas muita gente não consegue lidar com isso. Ainda assim, é muito importante fazê-lo, pois só através do autoconhecimento podemos ter uma vida mais feliz e com menos sofrimento.
Autoconhecer-se não é algo sofrido, pois nos acostumamos com a ideia de que temos ilusões, de que isso é normal e de que todo mundo as possui.
Esse incômodo surge nas primeiras vezes em que nos autoconhecemos. Depois passa, e nos acostumamos com a ideia de que também temos defeitos, de que esses defeitos nos fazem errar e de que isso é normal. Tudo bem sermos assim, pois todo mundo é assim.
Em algum momento do autoconhecimento podemos ter dificuldade para enxergar algumas coisas, mas isso acontece apenas às vezes.
Abra-se para enxergar tudo sobre você, pois assim seu autoconhecimento irá melhorar.
Não pense mal de si mesmo quando perceber algo sobre você. Fique feliz, pois está fazendo algo de grande valor espiritual, que é adquirir autoconhecimento.
Só podemos dizer que isso vale muito a pena.
No método socrático, cada vez que nos observamos, encontramos coisas a esclarecer, e é aí que vamos mais fundo, continuando a fazer perguntas e nos autoconhecendo.
Lidar com nossas aparências é necessário para sermos felizes, ou seja, eliminar as ideias erradas que temos sobre nós mesmos.
É importante nos amarmos mesmo com nossos defeitos, conhecendo e valorizando também nossas qualidades.
Os líderes políticos e, muitas vezes, os religiosos também criam ilusões para manipular a população. Como Sócrates ensinava a ir à essência das coisas, isso começou a incomodar os poderosos de Atenas.
Atenas é o nome da cidade em que viveu Sócrates.
Sócrates ensinava as pessoas a questionarem a si mesmas, mas também o mundo, refletindo sobre por que têm os valores que têm e se realmente seguem esses valores. Isso incomodou muitas pessoas.
Os métodos de conhecimento da realidade requerem interesse real, esforço, continuidade, insistência, muitas perguntas e a busca por respostas.
Nos diálogos, Sócrates fazia as pessoas mostrarem o que pensavam e refletirem se agiam de acordo com a forma como pensavam, chegando assim à essência.
Sócrates, a princípio, mostrava que não tinha conhecimento, para que o outro demonstrasse o conhecimento que possuía, sentindo-se superior no diálogo. Depois, esse processo era desconstruído.
Sócrates questionava a ideia que o outro tinha de si mesmo, mostrando que era apenas aparência. E somente desconstruindo a ilusão seria possível chegar à verdade.
Porém, isso causava muito ódio em algumas pessoas, pois elas se viam como grandes para depois se sentirem pequenas, e isso feria seus egos.
Freud tratava das ilusões das pessoas, trazendo conteúdos do inconsciente para a consciência, e isso se parece com o método socrático, embora não seja a mesma coisa.
A Psicologia não costuma fazer as pessoas se sentirem mal consigo mesmas; seu método é outro.
O método de Sócrates é rápido, mas muito chocante, principalmente para quem está iniciando no autoconhecimento e não está acostumado a ver seus defeitos e erros.
Ter defeitos e cometer erros é um fator humano.
Existe uma frase mística de que gosto muito, que é assim: "Nada que é perfeito encarna."
Na Bíblia está escrito que só Deus é perfeito.
Portanto, o autoconhecimento, na filosofia socrática, acontece através da reflexão, das perguntas e do diálogo.
No julgamento de Sócrates, que o levou à morte, ele teve a opção de parar com seu trabalho e não morrer, pois estava incomodando muitas pessoas.
Sócrates optou por morrer e não abandonar seu trabalho. Talvez não quisesse comprometer a credibilidade de sua filosofia, que acabou mudando o mundo.
Tudo o que sabemos sobre Sócrates vem de Platão, que era seu discípulo e fundou uma academia ensinando Filosofia, Metafísica e Antropologia filosófica.
A escola de Platão se propagou e é graças a ela que conhecemos a filosofia do homem que mudou a maneira de pensar das pessoas.
Sócrates não deixou nada por escrito, assim como Buda, Jesus e Zélio Fernandino de Moraes.
Esses seres mudaram o mundo, mas quem escreveu sobre eles foram outras pessoas, que gostaram e confiaram muito em seus trabalhos.





